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Se houver uma guerra nuclear, os vivos vão envejar os mortos - 10/11/2017
Na segunda-feira 6 de Novembro, à tarde, o Papa Francisco recebeu, na Casa Santa Marta, em visita privada, o ex-Secretário Geral das Nações Unidas, Kofy Annan, acompanhado por alguns outros membros da Organização “The Elders” (“Os mais Velhos”), um grupo de líderes independentes que trabalham pela paz e direitos humanos a nível mundial. Criado por Nelson Mandela, esta organização é actualmente chefiada por Kofy Annan e já vai no seu décimo ano de vida, aniversário que está a marcar com a campanha “Walking Toghether” (Caminhar Juntos) para dar continuidade ao longo caminho pela liberdade iniciado por Nelson Mandela.
Pouco depois da audiência com o Papa, a nossa colega do Programa Inglês falou com Kofy Annan e com a Srª Mary Robinson, antiga Presidente da Irlanda, antiga Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e mais recentemente, enviada da ONU para as questões das mudanças climáticas. Philippa começou por perguntar a Kofy Annan porque era tão importante para ele encontrar o Santo Padre neste décimo aniversário do grupo “The Elders”
“Acho que era importante vir ter com o Papa porque temos muitos interesses e valores em comum e queríamos ver com ele como podemos trabalhar juntos, como conjugar esforços nalguns desses temas que debatemos: refugiados e migrantes, armas nucleares (sobre o qual, aliás, haverá um encontro aqui no Vaticano sexta-feira próxima). Falamos de conflitos e mediação para a paz, e a Mary poderá referir do que falamos acerca da mulher, da importância de respeitar o papel da mulher… E espero que este será o primeiro de muitos encontros”.
Por sua vez, Mary Robinson sublinha o clima com que o Papa os recebeu, e disse que quiseram, antes de mais, manifestar-lhe o apreço que os Elders têm por ele, pois que, tal como eles, Francisco procura ser voz dos sem voz, dos marginalizados, e procura tratar aspectos difíceis dos conflitos. Aliás, falaram de alguns desses aspectos como o conflito na Venezuela, no Congo, e também das questões climáticas.
“O Papa tem-se empenhado em todos esses temas e achamos que havia um terreno comum entre nós… e muita afeição calor e humor no nosso encontro. Fiquei tocada pelo modo como o Papa estava relaxado connosco e sentia-se à vontade porque partilhamos valores comuns, propósitos morais, problemas comuns”
Philippa Hitchen perguntou ainda a Kofy Annan - que recebeu o Premio Nobel da Paz em 2001 e procurou tecer relações de paz quando estava à frente das Nações Unidas – como vê o mundo actual em que a diplomacia parece estar a ser mais guiada por twets e a retórica na internet parece cada vez mais perigosa?
“É preocupante, estou preocupado com isto, porque a diplomacia é necessária, é preciso empenhar-se, falar… Os líderes precisam de ouvir uns aos outros, o líder precisa saber quando actuar. Um líder não pode pretender fazer tudo à sua maneira, não pode pretender vencer sempre, não pode pretender que as pessoas o sigam sempre, tem de deixar os outros vencer de vez em quando porque, caso contrário, torna-se opressivo e perde as pessoas. Mas, actualmente os líderes parecem levantar a voz, gritar muito, fazer muito barulho, isto não é liderança. Honestamente, não é disto que se precisa. Há muitas ameaças e não é disto que precisamos. Precisamos de envolvimento, de compreensão, de vias de reconciliação… sim, há problemas e é preciso falar para os resolver. Esses assuntos não podem ser resolvidos com ameaças. E o que me angustia ainda mais é que com essas ameaças e contra-ameaças basta um erro, um calculo errado… e tudo desaba. Quero dizer que isto é um assunto que todos os líderes têm tratado: o Presidente Kennedy e Krutchev tiveram uma bela troca de correspondência com maturidade e sinceridade sobre a importância de evitar uma guerra nuclear. E uma vez Kruchev disse algo que realmente forte. Disse: se tivermos uma guerra nuclear, os vivos vão invejar os mortos.””
Fazendo ainda notar que naquele tempo o Papa João XXII estava em contacto com esses dois líderes, Philippa perguntou a Kofy Annan qual pode ser, a seu ver o papel da Igreja hoje, a nível geral e local na construção de pontes entre as pessoas como, aliás, costuma dizer o Papa Francisco?
“Acho que é importante que a Igreja continue a fazer isto e o Papa Francisco está a levar a cabo uma bela liderança. E a liderança que é necessária não é só falar com os homens e mulheres que estão na chefia dos governos, é também falar à massa e às pessoas de forma geral. Isto é importante porque encoraja as pessoas a pressionarem os seus líderes a por foram a porem essas importantes questões entre as prioridades das suas agendas; encoraja as pessoas a fazerem com que os líderes não ignorem determinados assuntos e os ponham na agenda. Então, essa voz do Papa é extremamente importante e não pode ser negligenciada”
Mary Robinson tem muito a peito a questão climática e está à frente de uma Fundação sobre o clima e a justiça. A nossa colega Philippa não pôde deixar, portanto, de lhe perguntar quais são as suas expectativas em relação à COP 23, ou seja a 23ª Conferência entre as Partes sobre as mudanças climáticas que decorre de 6 a 17 deste mês em Bona, na Alemanha.
“Esta é uma COP intermédia, mas é importante, porque é a primeira depois de o Presidente Trump ter anunciado que os Estados Unidos se vão retirar do Acordo de Paris sobre o Clima. É claro que não podem retirar-se antes de 4 de Novembro de 2020, e estarão, portanto, representados em Bona e não nos preocupamos com eles. É o chefe da Agencia de Protecção Ambiental que será um problema, porque quer falar do frio como forma de salvar o clima, mas ninguém acredita nisso. Por isso, é realmente importante que essa primeira conferencia seja realizada sob a presidência de um pequeno Estado, as ilhas Fidji…! Estive lá em Fidji e ajudei a preparar esta conferencia de Bona, porque é acerca da justiça climática, é acerca dos mais afectados e da responsabilidade, é acerca duma abordagem centrada na pessoa humana.”
Que impacto tem a encíclica do Papa Francisco “Laudato Si” a esse alto nível de tomada de decisões?
“Penso que teve um grande impacto quando saiu, pôs realmente as questões climáticas no mapa de uma forma holística, o que era muito bem-vindo, diria uma óptica de justiça climática, e continua a ser um documento-chave importante, um exemplo-chave importante de liderança. E para a sociedade civil e grupos de fé é um importante documento de persuasão.”
Falou com o Papa também da mulher, em que consistiu a vossa conversa sobre este ponto?
“Na verdade era muito ligada à questão climática. Disse ao Papa que estive numa conferencia no Vaticano em Julho de 2015, pouco depois da publicação da “Laudato Si” e exprimi o desejo de que muitos a lessem. Mas disse-lhe também que dado que está preocupado com a “Casa Comum” deveria ter posto mais enfase na questão “género e mudanças climáticas”, porque se tiver em conta a vida dos pobres são as mulheres as mais afectadas, são elas que se preocupam com o pôr a comida à mesa, que percorrem longas distâncias para irem buscar a água, para irem buscar a lenha… e senti que se se tiver de adoptar um plano de acção na Conferencia de Bona, há sim que ter em conta a “Laudato Si”, mas ter claro o empoderamento da mulher como sujeito de mudança e construtora de resiliência sobretudo as mulheres da base, seria um importante e forte sinal. “

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