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Vocação

Confiar e confiar-se

Estimado leitor, chegando ao mês de agosto, tradicionalmente dedicado à reflexão sobre as vocações, desejo refletir sobre tema de tão grande significado para nossa vida eclesial. Restrinjo-me, porém, à vocação sacerdotal e religiosa. Primeiramente, em se tratando de vocação devemos ter em conta o significado divino que a reveste. Com efeito, antes de tudo a vocação ao serviço de Deus na Igreja, mediante a consagração, é já moção de Deus em nós. De fato, a origem da vocação de toda pessoa encontra-se no projeto amoroso de Deus que escolhe homens e mulheres, elegendo-os instrumentos seus, destinados a fazer crescer o Mistério do Reino no mundo. Sendo assim, a vocação, enquanto serviço a Deus e ao mundo, prescinde de todo tipo de orgulho, presunção e autossuficiência. Ninguém dá a vocação a si mesmo. Ao contrário, é dom gratuitamente oferecido pelo Senhor da Messe.

Segundo aspecto a destacar consiste na finalidade altruísta da vocação. Quem abraça o ministério sacerdotal ou a vida consagrada não pode fazê-lo impulsionado pelo egoísmo, ambicionando pura autorrealização. Essencialmente, a vocação em sua vertente religiosa depende do outro para se realizar. Em última análise, essa alteridade para a qual está orientada a vocação na Igreja tem seu fundamento na mística do Jesus Redentor. No Mistério Pascal, Jesus Cristo personifica o dever oblativo da vida consagrada. Sua missão redentora é destinada à humanidade necessitada do regresso à vida de comunhão com o Criador. Pois bem, nosso Mestre e Senhor não fez de sua condição divina uma usurpação, mas se despojou, assumindo a forma de escravo, condescendendo conosco, a fim de nos salvar (cf. Fl 2,6-7). Também o vocacionado ao serviço de Deus na Igreja há de formar em si esta perspectiva. O nosso “eu” pessoal, precisa encontrar realização e regozijo na capacidade de abrir-se às necessidades do gênero humano, tão fragilizado e sedento por sentido.

A natureza oblativa da vocação é um dado intransponível. Todavia, ela deve ser eco de outra atitude sem a qual não há perseverança e autenticidade. Trata-se do terceiro aspecto que desejo ressaltar: a vida interior. Os grandes personagens bíblicos, os Padres da Igreja, místicos cristãos e as figuras responsáveis pelas maiores e mais admiráveis transformações positivas na história do Cristianismo, sempre foram pessoas de oração. Oração, por sua vez, pressupõe capacidade de escuta, sensibilidade e docilidade à vontade de Deus. Prevê a dialética do “confiar e do confiar-se”. Portanto, toda reflexão séria sobre o tema vocacional urge considerar o valor desta capacidade humana. Digo capacidade humana porque Deus, em seu amor infinito, suscita em nosso ser pessoal o desejo pelas realidades mais sublimes e elevadas que só se encontram n’Ele, fonte e origem de tudo. Deste modo, a oração, enquanto vida de comunhão com Deus, emerge como termômetro da verdadeira vocação, pois nela transcende a vontade humana de forma a lhe ser possível conhecer e abraçar o real propósito divino.

Em quarto lugar, não menos importante que os evocados até aqui, está o papel do autoconhecimento. Este é quesito-chave de todo processo de discernimento vocacional. Quem não conhece a si mesmo terá sérias dificuldades para ouvir, discernir e aceitar a vontade de Deus. Sentir-se vocacionado passa pelo processo de maturidade humana, afetiva e espiritual situado à base de toda conversão. Tal processo configura o itinerário percorrido pelos que, antes de nós, se fizeram porta-vozes de Cristo, em virtude do seu irresistível convite: “vem e segue-me!” (cf. Mt 9,9). Tomemos por exemplo o apóstolo Paulo. Em At 9 encontramos a narrativa da sua conversão. Na Carta aos Gálatas 1,15-24, Paulo fala dos três anos passados na Arábia após a conversão, antes de iniciar as viagens missionárias. Pois bem, os três anos de Paulo sinalizam o tempo necessário a fim de que o vocacionado conheça a si mesmo no intuito de dar razão e fazer valer a missão abraçada. Após a experiência com o Senhor Ressuscitado no caminho de Damasco, Paulo viu sua vida e história de modo novo, se deu conta da missão confiada pelo Senhor. Todavia, precisou de tempo para descobrir o sentido da novidade segundo a ótica de Deus. Não se apressou, mas obedeceu ao ritmo quisto pelo próprio Deus.

Pe. Alfredo Rafael Belinato Barreto
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