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A política e serviço do próximo por amor

O amor ao próximo, identificado por Jesus Cristo como o amor a Deus, resume toda a Lei e os Profetas. O encontro com o ouro é um verdadeiro encontro com o próprio Cristo. Assim interpretou a Igreja a parábola do Juízo Final. Todos. Independentemente das posições que ocupam, deverão prestar contas dos seus atos: “... Tive fome e me destes de comer; estive nu e me vestistes... estava na prisão e me visitastes...” Face à surpresa dos eleitos, conclui o Juiz Supremo: “Na verdade vos declaro: todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequenos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,31ss).

O que transparece nesta parábola não é apenas o amor fraterno como critério decisivo da separação entre eleitos, - convidados a tomarem posse do Reino que lhes fora preparado desde o início do mundo – e os condenados à frustração mais completa e consumada. O que surpreende é a identificação que o Juiz Supremo faz de si com os irmãos anônimos.

Essa identificação não se refere somente aos que servem os irmãos individualmente. Se podemos encontrar o Cristo em cada homem, poderemos encontrá-lo também naqueles que exercem a política que é, por definição, um serviço prestado à comunidade dos homens. O dom total de si mesmo aos outros foi o supremo ato messiânico pelo qual Cristo remiu a humanidade. Todas as vezes que os homens seguem o exemplo de Cristo, ainda que o ignorem, estão se movimentando em direção ao Reino de Deus.

O Sínodo dos Bispos, numa página admirável do documento “A Justiça no Mundo”, que merece ser citada na íntegra, ensina:

“Mediante a sua obra e a sua doutrina, Cristo uniu, de modo inseparável, as relações do homem com Deus e com os outros homens. Com efeito, Cristo viveu a sua existência, somo uma doação total de Si mesmo a Deus, pela salvação e libertação dos homens. Com a sua pregação proclamou a paternidade de Deus para com todos os homens e a intervenção da justiça do mesmo Deus em favor dos pobres e dos oprimidos (Lc 6,21-23).

De tal modo Cristo se fez solidário com seus irmãos “mais pequeninos”, que Ele mesmo disse: “Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Desde as suas origens a Igreja compreendeu e viveu o evento da Morte e Ressurreição de Cristo como um chamamento de Deus à conversão à fé em Cristo e ao amor fraterno, realizado no auxílio mútuo levado até ao compartilhar voluntário dos bens materiais. A fé em Cristo, Filho de Deus e Redentor e o amor do próximo constituem tema fundamental dos escritos do Novo Testamento. Segundo São Paulo, a vida cristã resume-se toda na fé que realiza aquele amor e aquele serviço do próximo que implica a observância dos direitos da justiça.

O cristão vive sob a lei da liberdade interior, isto é, num chamamento permanente à conversão do coração, da autossuficiência humana para a confiança em Deus e do seu egoísmo para o amor sincero do próximo. Assim se realiza a sua autêntica libertação e o dom de si mesmo pela libertação dos homens. Segundo a mensagem cristã, por conseguinte, a atitude do homem para com os outros homens é integrada na sua própria atitude para com Deus; a sua resposta ao amor de Deus, que nos salva através de Cristo, demonstra-se eficaz ao amor e no serviço dos homens. No entanto, o amor cristão do próximo e a justiça não podem separar-se.

O amor implica, de fato, uma absoluta exigência de justiça, que consiste no reconhecimento da dignidade e dos direitos do próximo. A justiça, por sua vez, alcança a sua plenitude interior somente no amor. “Por isso mesmo que cada homem é, realmente, imagem visível de Cristo, o cristão encontra o mesmo Deus e a sua exigência absoluta de justiça e de amor em cada um dos homens” (Sínodo dos Bispos, 2ª AG, doc. “A Justiça no Mundo”).

Aproximar política e caridade poderá parecer surpreendente e mesmo temerário. O que predomina na vida política não é sempre o amor do próximo, mas é muitas vezes o empenho por dominá-lo. Entretanto, desde há muito (cf. a carta de São Paulo aos Romanos, na qual as reflexões sobre o poder político [13,1-7] estão inseridas em contexto dedicado ao amor mútuo [12,9-20 e 13,8-10] vê a Igreja na política uma forma possível, e mesmo privilegiada, de manifestação da Caridade Cristã. A Doutrina Social da Igreja, ao apelar para o bem comum e para a justiça demonstra a convicção da Igreja de que a Caridade Evangélica pode e deve se exercer através da atuação política (cf. AO n.48).

Essa convicção, que não é inteiramente nova, adquire em nossos dias novo impulso. Ainda que a caridade concebida como relação interpessoal nada tenha perdido do seu conteúdo e valor, o caminho seguido por uma parte da humanidade no sentido de compartilhar cada vez mais com todos os homens os bens materiais, culturais, espirituais, que se encontram hoje na posse de uns poucos privilegiados, vem mostrar que a caridade já não pode restringir-se às relações interpessoais, mas deve assumir dimensão política. A caridade passa hoje, também e essencialmente, pela atuação política.

As grandes decisões que determinam o clima favorável ou desfavorável ao desenvolvimento da sociedade e de cada um dos seus membros expressam-se em termos políticos. É a partir de decisões políticas que o ônus e os benefícios do progresso da nação serão bem ou mal distribuídos. Não é sem participação política que se realiza o crescimento de todos na liberdade, na dignidade e senso de responsabilidade, que constituem as prerrogativas de um povo.

Não será sem decisões políticas que se dará maior ou menor atenção aos menos favorecidos e aos marginalizados. Delas decorre a alocação das parcelas destinadas no orçamento à execução e manutenção de obras prioritárias para o desenvolvimento de todos os membros da comunidade política. Pois o objetivo prioritário da atividade política deve ser o bem-estar de todos os membros da comunidade.

Pe. Raimundo Santana - peraimundo@hotmail.com
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