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Eu sou da paz

Paz e justiça são dois anseios fundamentais para reger toda a humanidade. Embora o conteúdo desses dois termos varie de acordo com a cultura, ou com o idioma em que é expresso, ninguém duvida de sua importância para o equilíbrio das relações, para o bem-estar global.

Em sua complexidade, nem sempre alcançamos o sentido profundo escondido nos idiomas bíblicos dos quais herdamos tais termos. Estes são usados nas saudações entre irmãos das mesmas Igrejas: “Paz de Cristo!”, “Paz do Senhor, irmão!”, ou nas reivindicações, após sermos vítimas de alguma violência ou injustiça: “Exigimos justiça!”, “A justiça de Deus não falha!”

Vale a pena averiguar suas origens para redescobrir o que significam e, aprofundando esse sentido, reorientar a vida de acordo com essa descoberta; esta dica é para todos que desejam viver em paz.

Shalom é o termo hebraico para “paz”, em grego, eirene. No Antigo Testamento (AT), shalom significa, basicamente, justeza (no sentido dos pratos da balança em equilíbrio), saúde, prosperidade, bem-estar geral e, enfim, bom relacionamento entre o ser humano e Deus. É uma condição de liberdade, vivenciada externamente, como uma ausência de guerra ou de inimigos, ou internamente, como falta de qualquer perturbação psíquica causada por enfermidades, medos, tristezas etc.

Por isso, a saudação shalom, usada também em despedidas, tornou-se o cumprimento mais comum. A Escritura afirma que até mesmo Deus saudava com o shalom: “Yahweh lhe disse: ‘A paz (shalom) esteja contigo!’” (Jz 6,23).

A paz como ausência de inimigos constituía o grande desejo de cada nação e era compreendida como um presente da divindade aos povos que se adequassem às suas exigências (cf. Dt 28,1.7). Essa mesma concepção era compartilhada por Israel; por isso, o ideal da Escritura é a existência de uma situação de paz (Mq 4,3-4). Dessa forma, Israel, em primeiro lugar, deveria propor a paz às nações, e não a guerra (Dt 20,10). E se, em último caso, essa proposta não fosse aceita, Israel teria várias normas a cumprir para respeitar a dignidade do inimigo, por exemplo, permitir que a mulher prisioneira de guerra guardasse luto pela família e em conformidade com a cultura dela (Dt 21,10-14).

No sentido de bem-estar interno, a paz é o quinhão de quem se confia a Deus (Sl 4,8; Is 26,3) e deveria ser buscada e vivida pelos justos (Sl 34,14). Por fim, o shalom aparece como principal característica dos tempos messiânicos (Is 2,4; 11,6; Mq 4,3-4; Zc 9,10). O messias seria chamado Príncipe da Paz (Is 9,6) e sua missão seria instaurar um reino de paz (Mq 4,4).

No Novo Testamento (NT), o termo eirene tem o mesmo significado e uso que o hebraico shalom. Por meio de Cristo, realiza-se a paz entre Deus e a humanidade (Lc 2,14; At 10,36). E é em Cristo, também, que se dá a eirene entre judeu e gentio (Ef 2,14-15), isto é, entre os povos. A paz é uma característica fundamental do reino de Deus (Rm 14,17). E deve ser buscada e vivida pelos seguidores de Jesus (Mc 9,50b). Paulo exorta os cristãos a viver a paz entre si (2Cor 13,11b) e, à medida do possível, com todos os seres humanos (Rm 12,18). Isso significa que o cristão somente não viverá a paz com alguém se o outro não quiser, mas nem mesmo assim a perderá: “Ao entrardes na casa, saudai-a. E, se for digna, desça a vossa paz sobre ela. Se não for digna, volte a vós a vossa paz” (Mt 10,12-13).

No NT, tal como no AT, temos eirene como saudação: “A paz esteja convosco!” (Lc 24,36; Jo 20,26). Aparece, do mesmo modo, como despedida: “Vai em paz!” (Lc 7,50). Mais que uma fórmula de cumprimento, a paz que vem de Deus, por meio de Jesus, é uma realidade efetiva e escatológica e, por isso, provoca uma reação no antirreino. A eirene do reino de Deus não significa uma ausência de conflitos como a pax romana, que impedia a reivindicação da justiça. A paz da soberania de Deus é denúncia de tudo o que impede a plena efetivação da dignidade humana. Nesse sentido é que se deve entender a seguinte afirmação: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada” (Mt 10,34).

A relação entre paz e justiça está fortemente presente no AT. O livro do profeta Zacarias exorta: “Fazei em vossas portas um julgamento de paz; não maquineis, uns contra os outros, o mal em vossos corações” (Zc 8,16-17). No antigo Israel, as portas da cidade serviam como tribunais onde se reivindicava justiça. Testemunhas de ambas as partes envolvidas no julgamento impunham a palavra por juramento e, a partir daí, o caso era decidido pelos anciãos. Em outras palavras, o que o texto de Zacarias quer afirmar é: que a paz é fruto da justiça.

Pe. Raimundo Santana - peraimundo@hotmail.com
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