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Missão da Igreja na Política

Desde longuíssima data, a Igreja se vê às margens com a problemática da sua relação com a política. De fato, o poder político surge na remotíssima antiguidade quando as comunidades se organizam em sociedade de trabalho sob um comando geral. E na Grécia antiga, nasce a política, como teoria de Estado, quando lá se pergunta pelo melhor Estado a partir da pluralidade de unidades políticas fortes bastante, quer para não poderem excluírem-se mutuamente, quer também para que nenhuma delas possa sozinha dominar a outra. E no momento em que a Igreja, deixando as catacumbas e passando de uma fase carismática pentecostal para uma organizativa se delineia mais claramente como instituição, defronta-se então com o Estado, com a política.

O termo política sofreu várias variações semânticas que necessitam serem explicadas a fim de evitar equívocos. Num sentido muito amplo, política significa a realidade global da vida social. Nesse sentido, toda ação que afete as relações sociais é política. Um sentido mais restrito, ainda, porém, bem vasto, se refere à concepção global da vida social (ideologia). Nesse caso, todas as concepções ideológicas são, de certo modo, políticas. Restringindo ainda mais, o termo política se reserva para ações que, ainda que não partidárias, se relacionam diretamente com o termo político, serve para designar as ações que diretamente dizem respeito à obtenção e conservação do poder, sobretudo através dos partidos, do Estado, do governo.

A Igreja, ao longo de sua história, experimentou momentos diferentes nessa relação com a política. Durante longo tempo foi ela quem tutelou o Estado, exercendo assim um poder político direto e estrito, de modo especial na Idade Média. O complexo movimento político-cultural da modernidade levou a Igreja a reconhecer que “as coisas criadas e as próprias sociedades gozam de leis e valores próprios, a serem conhecidos, usados e ordenados gradativamente pelo homem” (GS n. 36) e que a “missão própria confiada por Cristo à sua Igreja não é de ordem política, econômica ou social (GS n. 42). Entretanto, o movimento liberal quis ir mais longe, ao reduzir o papel da Igreja unicamente à esfera espiritual privada, pessoal, intimista, de modo que qualquer manifestação pública da Igreja no mundo constituía-se em exorbitação de seus direitos. Por isso, se de um lado a Igreja reconheceu e reconhece a legítima autonomia do mundo político, doutro lado arroga-se o direito de “respeitar e promover também a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos” (GS n.76). Mais claramente afirma: “é justo que a Igreja, sempre e em toda parte, possa, com verdadeira liberdade, pregar a fé, ensinar a sua doutrina social, exercer livremente a sua função entre os homens e proferir o juízo moral sobre realidades que se relacionam com a ordem política, quando o exigiram os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas. Para isso empregará todos, exclusivamente, os meios condizentes com o Evangelho e com o bem de todos, segundo a diversidade dos tempos e das situações” (GS n. 76).

Tal pretensão da Igreja não exorbita de sua esfera nem fere a razão humana. Pois todo corpo social, pelo fato inelutável de sua existência, constrói a sociedade dos homens, influencia o mundo das pessoas, faz história. Doutro lado, ele é, por sua vez, constituído pela sociedade, influenciado pelo mundo, criado pela história. A Igreja não pode, portanto, esquivar-se de tal realidade dialética. É fato incontornável. Pertence à natureza e constituição de todo corpo social histórico. Mas a Igreja, pode sim, querer discernir e decidir sobre a qualidade e a natureza de tal ação. Assim ao querer negar-lhe tal direito, o movimento liberal, subreptícia e ideologicamente, pretenda encontrar no silêncio e no recolhimento da Igreja à pura esfera do privado, um campo aberto para sua hegemonia à margem de toda crítica ética e evangélica que a Igreja pudesse fazer. E se a Igreja fosse conivente com tal ideologia, estaria, sem talvez totalmente conta, apoiando sem mais o “status quo” dos regimes instaurados na modernidade, com todas as enormes injustiças sociais que eles produziram. Hoje com muito mais clarividência a Igreja sabe que sua presença na história e na sociedade não pode ser neutra, apolítica, já que estabelece necessariamente relações com os outros corpos sociais, com o poder, com o Estado. Toca-lhe, sim, apurar os critérios evangélicos para nortear-lhe as ações.

O fato da presença da Igreja no mundo da política é inelutável, mas a sua qualidade e natureza dependem de sua consciência evangélica e do momento histórico. Portanto, é a vocação evangélica e histórica que lhe dita o modo de proceder na política, ora a sua evangelicidade tem marcas permanentes e definitivas, que, porém, devem ser pensadas em cada momento histórico. Nesse sentido, cabe sempre refletir de novo sobre tal problemática, já que os eventos históricos nascem sempre da novidade da liberdade humana no entrechoque com as diferentes situações.

Pe. Raimundo Santana - peraimundo@hotmail.com
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