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Galileu e o erro do IPEA - Maio de 2014

Galileu Galilei nasceu em Pisa, Itália, em 1564. Foi matemático, físico e astrônomo. Hoje poderíamos chamá-lo de filósofo da ciência. Sua investigação sobre a produção do conhecimento científico foi determinante para o fim de uma longa hegemonia aristotélica. O golpe de gênio de Galileu, entre outros, foi de quantificar a física, até então, largamente qualitativa. Trocando em miúdos. Galileu restringiu o campo da ciência ao que se pode medir e pesar. Isso permitiu controlar seus experimentos dando-lhes exatidão e possibilidade de repetição. A física de cunho aristotélica explicava os fenômenos do mundo usando também elementos que não podem ser “controlados” e, portanto, comprometia a repetição das experiências. Por exemplo: a fumaça sobe porque é leve; a pedra cai porque é pesada. Leve e pesado são qualidades em relação a alguma outra referência. Impossível repetir uma experiência com exatidão partindo do qualitativo. A beleza ou feiúra são qualidades. O sistema métrico e quilograma são quantidades. Com isso, Galileu pode fundar o que hoje chamamos de ciência moderna.

O sucesso da física de Galileu foi tal, que logo aplicaram seu método a outros âmbitos do saber. Algumas ciências se beneficiaram rapidamente, como por exemplo, a química. No século XIX foi a vez das ciências humanas. Mas se o método da nova física ou física galileana fecundava sem problemas as ciências da natureza, no caso das ciências humanas isso era mais complicado e incerto. O comportamento humano não se presta facilmente ao controle quantitativo. Por outro lado, as pessoas que compartilham a vida em uma mesma sociedade possuem padrões de comportamento que as homogeneízam. Isto é, tendemos a nos comportar conforme nossos semelhantes. Compartilhamos mais ou menos os mesmos sentimentos, desejos, ansiedades etc. Essa semelhança possibilitou o desenvolvimento da estatística. Desde então, disciplinas filosóficas como a psicologia racional e a filosofia social, ganharam independência e se tornaram “ciências” autônomas, no sentido moderno dessa palavra: psicologia e sociologia científicas. Fazendo largo uso da estatística, quantificando o comportamento humano.

Atualmente temos pesquisas com seus resultados estatísticos sobre praticamente tudo. Porque o ser humano tende a assemelhar-se em seu comportamento, elas fazem sentido. Há também uma outra questão. Vivemos em uma sociedade onde a maioria, portanto, algo quantitativo, passou a ser critério de “normalidade”. Aqueles que se colocam dentro de parâmetros aceitas socialmente estabelecem o que é “normal”. Mas as pesquisas vão muito além de uma mera constatação, elas são um precioso instrumento de manipulação social. No Brasil, mas também em outros países, seu uso em campanhas eleitorais prova isso. Falta-nos uma pesquisa confiável sobre a veracidade das pesquisas, bem como de seu uso.

No mês passado aconteceu algo interessante nesse sentido. O IPEA – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – divulgou uma pesquisa cujo resultado estava errado. Segundo a divulgação inicial, 65,1% dos brasileiros entrevistados concordavam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Houve uma indignação generalizada, com toda razão! Até a presidenta do Brasil se manifestou. Jornais pelo mundo noticiaram essa triste constatação entre os brasileiros. Alguns dias depois, a correção do IPEA: em vez de 65% dos entrevistados concordarem com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, o número é 26%. Setenta por cento não concordam e 3,4% não manifestaram opinião. Ainda assim a cifra é alta. Ninguém merece ser vítima de violência! No entanto, muitas análises e debates já haviam sido feitos sobre aquela cifra errada. E se não tivessem corrigido?

Quantas pesquisas nos apresentam que podem conter erros, intencionais ou não? Isto nos mostra o quanto estamos vulneráveis a esse tipo de informação. É preciso estar atentos e não acreditarmos em tudo que ouvimos ou lemos, apresentados ou não como “científicos”. Há, na maioria das vezes, muitos interesses não explicitados.

Pe. Luiz Antônio Belini - labelini2016@gmail.com
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